sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A INVENÇÃO DO AMOR



Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor

Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com caracter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo

Um homem e uma mulher um cartaz denuncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura A policia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e nas avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique Antes
que a invenção do amor se processe em cadeia

Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos
Chamem as tropas aquarteladas na província
Convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva
Todos decrete-se a lei marcial com todas as consequências
O perigo justifica-o Um homem e uma mulher
conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade

É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los
antes que seja tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas

Fechem as escolas Sobretudo
protejam as crianças da contaminação
uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente porque lha recusaram
Segundo o director da sua escola é um pequeno triste inexplicavelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem razão
Aplicado no entanto Respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos
Ainda bem que se revelou a tempo Vai ser internado
e submetido a um tratamento especial de recuperação
Mas é possível que haja outros É absolutamente vital
que o diagnóstico se faça no período primário da doença
E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade

Está em jogo o destino da civilização que construímos
o destino das máquinas das bombas de hidrogénio das normas de discriminação racial
o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos
a verdade incontroversa das declarações políticas

...

É possível que cantem
mas defendam-se de entender a sua voz Alguém que os escutou
deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de lágrimas
E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra
respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz
lhe lembravam a infância Campos verdes floridos
Água simples correndo A brisa das montanhas
Foi condenado à morte é evidente É preciso evitar um mal maior
Mas caminhou cantando para o muro da execução
foi necessário amordaçá-lo e mesmo desprendia-se dele
um misterioso halo de uma felicidade incorrupta

...

Procurem a mulher o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do país da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência

Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem família a testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz interior
uma voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da adolescência longínqua


Daniel Filipe 

"Em 1925 nasceu Daniel Damásio Ascensão Filipe na ilha da Boavista, em Cabo Verde.

Ainda criança, foi para Portugal onde fez os estudos liceais. Poeta, foi colaborador nas revistas Seara Nova e Távola Redonda, entre outras publicações literárias. Combateu a ditadura salazarista, sendo perseguido e torturado pela PIDE.

Num curto espaço de tempo, a sua poesia evoluiu desde a temática africana aos valores neo-realistas e a um intimismo original que versa o indivíduo e a cidade, o amor e a solidão.
Faleceu em 1964 em Cabo Verde."

"Jornalista e poeta. Co-director dos cadernos “Notícias do Bloqueio”, colaborou também assiduamente na revista “Távola Redonda” e realizou, na Emissora Nacional, o programa literário “Voz do Império”. Daniel Filipe iniciou a sua actividade literária em 1946 com Missiva, seguindo-se Marinheiro em Terra (1949), O Viageiro Solitário (1951), Recado para a Amiga Distante (1956), A Ilha e a Solidão (1957) – Prémio Camilo Pessanha; o romance O Manuscrito na Garrafa (1960), A Invenção do Amor (1961) e Pátria, Lugar de Exílio (1963). O amor e a solidão, o indivíduo e a cidade recortam-se nos seus versos com acentos originais, fluentes e por vezes inesquecíveis."



Para os que tiveram paciência de ler até o final, obrigada e espero que tenham gostado!
Beijinhos

18 comentários:

Anônimo disse...

Gostei muito Angela!
Não conhecia o Daniel Filipe, vou pesquisar.
Bjs.

Sandra disse...

OLA AMIGA..
Tem um lindo um selo de AMIZADE AQUI:http://sandraandrade7.blogspot.com/ tem um lindo selo de amizade para vc. Venha e leve...
A amizade é um dom que todos temos para conquistar..
E eu já conquistei vc.
Te adoro..
amizade é muito sublime, por isso, temos que estar sempre culticando..
Mas na Curiosa, também tem SUPER AMIGAS..PASSE LÁ...
Um grande abraço.
Sandra.

Há... não deixe de ver quem esta no blog Sinal de Liberdade.
Com muito carinho,

Anônimo disse...

Angela,que beleza de poesia.Um pouco conto tb,como se no futuro até o amor será proibido!Lindo texto do Daniel!Bjs,

Sonhadora disse...

Angela
Adorei o texto...lindissímo

Beijinhos
Sonhadora

Whesley Fagliari disse...

Querida Angela,

Quanta saudades de ti e deste seu canto magnifico... Saiba que na correria do dia a dia nao esqueco nunca de quem me inspira... e vc, com certeza, eh uma dessas pessoas...

Que bela publicacao esta, hein!!! Emocionante... Muito! Mesmo!!! Parabens!!


Luz e paz!!

Com carinho eterno,
Whesley

Poesia do Bem disse...

Oi amiga saudades.Passei pra desejar feliz fim de semana e convidar a visitar meu blog se desejar comente veja o poder do amor que Alice escreveu. bjs
em blogspot

http://paulabelmino.blogspot.com/

...EU VOU GRITAR PRA TODO MUNDO OUVIR... disse...

Um beleza!!!

O Amor asusta aos mal amados...

O que me abisma é que o poeta já antevia os dias atuais há décadas atrás...ou será que sempre foi assim?

Um beijo e parabéns!

Sonia Regfina.

manuel marques disse...

Excelente texto

Beijos e bom fim de semana.

Anônimo disse...

Se desejas uma amiga,também desejos...amigas...amigas...são flores para toda vida!

Lorena Lima disse...

Adorei seu blog!!!
Estou seguindo-o, te convido a dar uma olhadinha no meu e se gostar, fique a vontade pra segui-lo também.
Um abração carioquinha,

LL

Daniel Costa disse...

Angela Guedes

Fiquei encantado com a leitura do texto que, imperdoávelmente, não conhecia. Um maravilhoso texto a deixar patente a tua grande sensilidade. Fico grato pela oportunidade que proporcionaste.
Beijos
Daniel

Alvaro Oliveira disse...

Amiga Angela

Belo conto, em estilo poético.
Se assim foi inventado o amor,
bendito seja. rs
Adorei.

Beijinhos

Alvaro

Zé Povinho disse...

Não conhecia este autor mas gostei do que li e vou pesquisar um pouquinho.
Abraço do Zé

Graça Pereira disse...

É preciso encontrar o casal que inventou o amor com caracter de urgência...mas é tambem preciso encontrar o local onde eles o deixaram esquecido... e com urgência!
Beijo e boa semana
Graça

Princesa disse...

Olá boa noite
´´´´¶¶¶¶¶¶´´´´´´¶¶¶¶¶¶´´´1 Beijo
´´¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶´´¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶´´´1 Abraço
´¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶´´´´¶¶¶¶´´´1 Carinho
¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶´´´´¶¶¶¶´´´1 Obrigado
¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶´´¶¶¶¶¶ ´´´1 Sorriso
¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶ ´¶¶¶¶¶´´´1 Bom dia
´¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶´´ 1 Boa tarde
´´´¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶´´´ 1 Boa noite
´´´´´¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶´´´1 Boa sorte
´´´´´´´¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶¶´´´1 mar tranquilo
´´´´´´´´´¶¶¶¶¶¶¶¶´´´ Ou até mesmo
´´´´´´´´´´´¶¶¶¶´´´ Apenas um olá!
´´´´´´´´´´´´¶¶
E muitos
          

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¹i|¡,¡|i¹.      ..¹i|¡,¡|i¹ .

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Hoje em especial visite meu blog
BOA SEMANA!!!
Beijinhos

Viviana disse...

Querida Ângela

Olá, minha linda amiga!

Mas que poema lindo partilhou hoje conosco aqui!

Muito belo, mesmo.

Obrigada por ter divulgado este poeta, português...á altura que escreveu o poema!

Este talvez seja o seu mais importante poema.

Mas tem tantos outros também belíssimos.

Muitos dos lugares de que fala em muitos poemas, conheço-os muito bem.
E nessa altura, tambem eu estava a viver em Lisboa!A Estudar Enfermagem...e ele vivia bem perto do local onde eu vivia.

Interessante, não?

Como as coisas são!

Obrigada uma vez mais.

Um dia destes conto publicar também um poema dele.

Um grande e carinhoso abraço

viviana

Sandra disse...

BOM DIA!
FESTA SURPRESA...
CONVITE.
GOSTARIA DE RECEBER PARA BRINDARMOS O ANIVER...
TE ESPERO..
ONDE: CURIOSA.
HORÁRIO: DURANTE O DIA.
DIA:08.02.2010

FICAREI MUITO FELIZ EM TE RECEBER...
SANDRA

Anônimo disse...

Voltei Angela,para avisar que seu selinho está postado hoje no meu blog "estrelinhas voadoras".Obrigada pelo carinho!Bjs,