quinta-feira, 20 de maio de 2010

TRÍADE FRANCESA




Timidamente, no meu momento mãe coruja resolvi postar aqui no meu blog, este texto que recebi da minha filha.

Caros amigos, cá estou eu, no auge dos meus 30 anos, prestes há completar três anos na França. Talvez seja por isso que venho refletindo sobre a predominância do número três neste pais que me acolhe. O três que de fato é um número místico para a sociedade ocidental.
George Dumezil defendia  a tripartição das sociedades indo-européias. As três funções: clero, guerreiros e trabalhadores consistem numa compreensão de  mundo seguindo  uma ordem hierárquica bem definida. Na Roma Antiga a tríade divina de Júpiter, Juno e Minerva ordenavam o cosmos na mitologia. Mais perto de nos:  pai, filho e espírito santo estão ancorados em nosso subconsciente, sempre um pouco cristão.

Na França, as tríades estão la, por toda parte, basta observar com atenção... Podemos começar com o famoso dispositivo, « Liberdade, Igualdade, Fraternidade » que futucando bem, temos que admitir que só somos livres para obedecer a maquina burocrática que não faz sentido algum. A  igualdade existe desde que você não seja diferente e fraternidade, bom, acho que os fraternos não freqüentam os mesmos lugares que eu. Lembrando que este dispositivo aparece no momento da instalação da republica, quando os três grandes poderes  executivo, legislativo e judiciário entram em cena.

Fora do panorama político, observei que as famílias aqui são em sua grande maioria compostas pelos três personagens básicos « pai, mãe e filho » este ultimo podendo facilmente ser substituído por um cachorro ou gato e ainda por cima, ser tão amado quanto, quem sabe até mais.

Na rua, o ônibus, o metro e o tramway são os grandes facilitadores da vida na megalópole parisiense, o problema é que as  greves  ou manifestações que ocorrem com freqüência, são agravantes irreparáveis na aventura diária da locomoção.

No que concerne a cozinha francesa, a tríade ta la... O pão, o queijo e o vinho são primordiais, a base da alimentação, e eu diria até, quase divinos.  Pois no quesito alimentação aqui não se brinca. Homens e mulheres, jovens ou idosos, como em um ritual sagrado, consomem essa tríade todos os dias e ainda afirmam que suco durante as refeições é extremamente prejudicial à saúde, « c'est le pinard qui fait du bien ».

Na universidade, três anos para se obter um diploma. Diploma este, que para ser adquirido é necessário o total e absoluto domínio do plano em três partes, tão importante como a tríade alimentícia. O plano em três partes te segue te assombra e pode transformar tua vida no maior de todos os pesadelos...  por força do habito a vida passa a ser um plano em três partes: tese, antítese e síntese ou introdução, desenvolvimento e conclusão, regado a muito en effet, cependant e néamois,  caso contrario, não funciona.

Na vida profissional, três fases para se iniciar o processo: carta de motivação, CV e entrevista. Lembrando que a própria carta de motivação precisa ser feita em três partes « vous, mois, nous »; o bom é pensar nesse plano no momento de pleitear um cargo que caixa de supermercado « vous: grande empresa líder de produtos alimentícios; mois: sempre sonhei em fazer parte deste time de vencedores, desde criança sonho com o barulhinho (puuuuuu) dos produtos passando no caixa; nous: iremos juntos dominar o mercado do consumo exagerado!!!!!!!

Qualquer relação com um interlocutor francês começa com bonjour, depois uma pequena troca de insultos singelos e discretos, e por fim,  a comunicação propriamente dita. Para conseguir alguma coisa no serviço publico primeiro você espera, depois briga e finalmente, quem sabe, pode até fazer um amigo.

Quanto ao clima, não entendo essa grande obsessão que cerca o pais...  « la météo »... na verdade é muito simples, só existem três estações: a fria, a muito fria e a fria e úmida... dizem que faz calor no verão, infelizmente nunca vi... No inverno é facinho, o dia é noite de manha, noite de tarde e noite de noite e na primavera é dia de manha, dia de tarde e dia de noite...
69: dois belos múltiplos de três formam o ano marco da historia da França.  Paris a flor da pele dissemina pelo mundo o « ménage à trois » leia-se: putaria a três... Estudantes, mulheres e trabalhadores urram e fazem-se ouvir.

Três classes sociais: franceses pobres, franceses ricos e estrangeiros. Três presenças marcantes nas ruas de paris: África negra, países de cultura árabe e asiáticos... para o grande pesadelo dos que não se acostumam com o inverno nem tampouco com a presença dos estrangeiros...eternos infelizes.

Três tipos de louco nas ruas: o louco de dar pena:  aquele vizinho aposentado que pula de felicidade quando o sol ensaia uma saidinha, assim ele pode sair de casa para lavar o carro, cortar a grama e consertar o portão da garagem. O louco de dar medo: aquele que se rebelou contra o sistema, mora na rua, é descabelado e fala sozinho com uma garrafa de vinho barato na mao. O louco de da raiva: que geralmente é concursado e acha que é muito poderoso só porque tem um carimbo escrito Republique Française.

Bom, se quisermos continuar isso vai longe... mas quando penso que para realizar minha tão sonhada carreira de historiadora da arte /archeologa, tenho que passar mais três anos aqui... me da vontade de dar 3 pulinhos para São Longuinho para reencontrar minha sanidade.

Porque se no Brasil, « um é pouco, dois é bom e três é demais », acho que a França ta ficando demais pra mim. E serão mais três anos sem sol, mar e água de coco. três anos de saudade dos meus pais, irmãos e amigos. três anos achando que o Brasil é que é legal, que brasileiro é que é gente boa e que samba é que é musica de verdade.

E eu, com meus então 33 anos, volto para o Brasil com um suado diploma na mao... e vou ter saudade do velho mundo, das fachadas haussemanianas, dos loucos de dar pena e do bom e velho pinard que faz bem pra saúde.
Voila mes chers amis... Três minutos de intervalo para um breve desabafo irônico... afinal de contas C'est pas tous les jours qu'on rigole...

PS.: Sem exigências no quesito ortografia ok. Teclado francês (zero acentos) sem corretor português (algumas barbaridades podem sempre ser vistas como erro de digitação) rsrsrs...

Texto- Lília Guedes

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