sábado, 22 de novembro de 2008

SE


Se podes conservar o teu bom senso e a calma

No mundo a delirar para quem o louco és tu...

Se podes crer em ti com toda a força de alma

Quando ninguém te crê...

Se vais faminto e nu,

Trilhando sem revolta um rumo solitário...

Se à torva intolerância, à negra incompreensão,

Tu podes responder subindo o teu calvário

Com lágrimas de amor e bênçãos de perdão...

Se podes dizer bem de quem te calunia...

Se dás ternura em troca aos que te dão rancor

(Mas sem a afectação de um santo que oficia

Nem pretensões de sábio a dar lições de amor)...

Se podes esperar sem fatigar a esperança...

Sonhar, mas conservar-te acima do teu sonho...

Fazer do pensamento um arco de aliança,

Entre o clarão do inferno e a luz do céu risonho...

Se podes encarar com indiferença igual

O triunfo e a derrota, eternos impostores...

Se podes ver o bem oculto em todo o mal

E resignar sorrindo o amor dos teus amores...

Se podes resistir à raiva e à vergonha

De ver envenenar as frases que disseste

E que um velhaco emprega eivadas de peçonha

Com falsas intenções que tu jamais lhes deste...

Se podes ver por terra as obras que fizeste,

Vaiadas por malsins, desorientando o povo,

E sem dizeres palavra, e sem um termo agreste,

Voltares ao princípio a construir de novo...

Se puderes obrigar o coração e os músculos

A renovar um esforço há muito vacilante,

Quando no teu corpo, já afogado em crepúsculos,

Só exista a vontade a comandar avante...

Se vivendo entre o povo és virtuoso e nobre...

Se vivendo entre os reis, conservas a humildade...

Se inimigo ou amigo, o poderoso e o pobre

São iguais para ti à luz da eternidade...

Se quem conta contigo encontra mais que a conta...

Se podes empregar os sessenta segundos

Do minuto que passa em obra de tal monta

Que o minute se espraie em séculos fecundos...

Então, á ser sublime, o mundo inteiro é teu!

Já dominaste os reis, os tempos, os espaços!...

Mas, ainda para além, um novo sol rompeu,

Abrindo o infinito ao rumo dos teus passos.

Pairando numa esfera acima deste plano,

Sem receares jamais que os erros te retomem,

Quando já nada houver em ti que seja humano,

Alegra-te, meu filho, então serás um homem!...

(RUDYARD KIPLING

- tradução de Féliz Bermudes)
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